A minha avó Lili nasceu em 1932, segundo consta, no dia 3 de Maio. Nasceu entre a Vila Nova de Caparica e o Lazarim, filha de pais não casados e por isso, à data, seria considerada filha ilegítima, isto se tivesse sido registada. O meu bisavô Luís, seu pai, achava um despropósito registar uma filha, gostaria de tecer considerações sobre o motivo, mas segundo sempre ouvi era só mesmo por estupidez. O irmão e a irmã, ambos mais velhos, eram registados, uma vez que antes do nascimento da minha avó ao que consta houve um tipo de fiscalização para obrigar os pais a registar os filhos. Como eram registados foram à escola, a minha avó, não. Os pais ainda decidiram pagar a uma professora particular para a ensinar, mas como eram pobres, acho que não foi a mais que duas ou três aulas. E foi assim que a minha avó Lili teve de aprender sozinha a ler e a escrever, o que sabia fazer, não muito bem, mas muitíssimo bem para os estudos que tinha ou melhor que não tinha. Sabia ainda melhor fazer contas, fazendo já na sua velhice sucesso entre os jovens universitários que não percebiam como fazia contas tão rápido e bem. Mal eles sabiam que nem à escola tinha ido.
Como não era registada, não existia oficialmente e por isso não podia casar. E esse foi o motivo que levou a que fosse registada já depois dos vinte anos, nesse momento passou a ser oficialmente Eva Claudina Figueiredo Paulo de Oliveira. Já que não existiu durante vinte anos, depois passou a ter direito a nome de realeza. Não sei, agora que penso nisso, se alguma vez tinha sido Eva antes de ser registada, uma vez que pelo que ela dizia sempre foi Lili. Também é algo que nunca saberei.
Casou, teve duas filhas, entre as quais a minha mãe e parece que mais dois filhos que não escaparam ao parto. Também a minha mãe provavelmente teria essa sina, se não tivesse nascido de cesariana em 1958, mas isso fica para outra história.
O casamento era à moda da altura, ou seja, o meu avó não era exatamente um marido agradável ou seria um marido comum à moda dos tempos, onde bater na mulher era algo que não se estranhava. Incrivelmente nem a minha avó, nem o meu avô bateram alguma vez nas filhas. A minha avó ficou viúva com quarenta e poucos anos e passou outros tantos vestida de preto.
Pessoa de trabalho sempre, gostava de estar no seu canto, sossegada e calma, quase como se não existisse, talvez como nos seus anos de infância onde realmente para efeitos legais não existia. Era muito carinhosa e já a minha mãe adulta, acordava-a com beijinhos e cortava-lhe fruta para o pequeno-almoço. Avó doce e chata que achava que as netas não deviam brincar muito, não fosse ficarem cansadas, gostava de me dar beijos repenicados quase dentro dos ouvidos e dizer-me "és os castelinhos, mijadonxo, escagadonxo".
No final da década de 1990, já eu estava na adolescência decidiu ser baptizada, sim eu fui ao baptizado da minha avó. O padre que já a conhecia há anos, conhecendo a sua faceta de boa pessoa, decidiu explicar-lhe durante o sermão, "devemos ser bons, mas não devemos ser parvos", não sei se ela percebeu a indireta.
Dava-me muito jeito ser neta dela, uma vez que se precisasse de alguma coisa, bastava dizer aqui no Monte de Caparica, "sou neta da Lili". Dizia isso sobretudo quando a minha mãe me pedia para levar sapatos ao sapateiro, nunca percebi se era para o sapateiro os arranjar melhor.
Cresceu e viveu a vida toda na casa de pasto aberta pelo seu pai nas Casas Velhas, tornando-se a sua figura central, o nome da casa passaria a ser conhecido por todos por "A Lili" ou "A viúva". E era aí onde mostrava os seus dotes numéricos aos universitários pasmados.
Adoeceu na casa dos setenta anos, doença de Alzheimer, foi perdendo as faculdades aos poucos, morreu em 2014, dois anos depois de falecer a filha mais nova, a minha mãe. Nunca percebeu a falta da filha e nesses dois anos às vezes chamava-me "Belinha".
Assim, começo este blogue que tem como objetivo contar histórias minhas e de outros. E começou assim com a da minha avó Lili, D.Eva Claudina.
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
A minha avó Lili
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De Catarina, o cante, as ruas e Baleizão
Ainda só estou na segunda publicação e já estou a mudar ligeiramente o intuito do blogue. Também os blogues são compostos de mudança. Mas nã...
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A minha avó Lili nasceu em 1932, segundo consta, no dia 3 de Maio. Nasceu entre a Vila Nova de Caparica e o Lazarim, filha de pais não casad...
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Ainda só estou na segunda publicação e já estou a mudar ligeiramente o intuito do blogue. Também os blogues são compostos de mudança. Mas nã...
o Texto está muito bonito. Parabéns!
ResponderEliminarQueremos mais!
ResponderEliminarAdoro histórias de pessoas... Que boa ideia!
ResponderEliminarAdorei "conhecer" a avó Lili...
Obrigada a todos :)
ResponderEliminarÉ para continuar sim, a apresentar mais pessoas pela minha perspectiva claro.