Ainda só estou na segunda publicação e já estou a mudar ligeiramente o intuito do blogue. Também os blogues são compostos de mudança. Mas não deixa de também estar relacionado, também são pessoas e toda a gente que cabe na minha memória sobre uma pessoa em específico.
A primeira vez que ouvi falar de Catarina Eufémia andava na escola primária de certeza absoluta, e tenho essa convicção porque trocávamos moradas para nos escrevermos nas férias. Embora não tenha a certeza se alguma vez escrevi a alguém, mas lembro-me de receber pelo menos uma carta de uma colega em Agosto. Mas deve ter sido numa destas ocasiões que descobri que uma das minhas melhores amigas, ainda hoje o é, morava da Praceta Catarina Eufémia.
E esta coisa do nomes das ruas interessava-me, ainda hoje me interessa na realidade. Mas interessava de tal forma que ainda me lembro de ter uma discussão na escola primária com uma colega, além de colegas de turma, morávamos no mesmo prédio, uma de nós dizia que morava na Rua Movimento das Forças Armadas e outra dizia que morava na Rua do M.F.A., lembro-me de estar muito chateada e ir contar ao meu pai aquele desentendimento, quando ele me explicou que o Movimento das Forças Armadas era o M.F.A. e me contou o que era afinal esse movimento.
Mas além de gostar muito de nomes de ruas, também gostava muito de nomes de pessoas, não passasse eu horas à procura de nomes estranhos nas listas telefónicas. E deve ter sido aí que um dia disse à minha mãe "Oh mãe, a Cláudia mora na praceta Catarina Eufémia... que nome estranho Eufémia" e foi aí pela primeira vez me contaram quem foi Catarina Eufémia. Espectacular, uma mulher ceifeira que morreu a lutar pelos seus direitos, deve ter sido isto que fez brotar o pequeno ser comunista que havia em mim.
Entretanto, as memórias de algo ligam-se e relacionam-se como muito mais coisas obviamente. E foi no café da minha avó, café, tasca, restaurante, casa de pasto, taberna, fosse lá o que fosse que continuei a ouvir falar de Catarina Eufémia, mas de outra forma. Ao fim da tarde, costumavam-se encontrar alentejanos lá. Traziam o farnel, cortavam o pão com o canivete, pediam para aquecer às vezes a comida, ou seja basicamente só consumiam vinho ou outra bebida. Fazia-me alguma confusão a minha avó, a minha mãe e a minha tia acharem normal terem uma casa cheia e venderem quase nada, mas deve ter sido assim que também descobri em mim essa dicotomia que ora parece comunista, ora parece católica. Afinal, se pouco têm, não os vamos obrigar a consumir. Mas a pessoa tem um café para ganhar dinheiro? Tal disparate.
Mas como eu ia dizer, entre comida e bebida lá iam cantando, e se a mais cantada era:
"Eu ouvi um passarinho,
Às quatro da madrugada,
Cantando lindas cantigas,
À porta da sua amada.
Cantando lindas cantigas,
À porta da sua amada.
Por ouvir cantar tão belo,
A sua amada chorou.
Às quatro da madrugada,
O passarinho cantou.
Às quatro da madrugada,
O passarinho cantou."
Às vezes também cantavam:
"Ó Baleizão, Baleizão!
Ó terra de Catarina,
Onde nasceu e morreu
Por uma bala assassina"
Além disso, às vezes chateavam-se e lá um dizia "Olha que eu sou de Baleizão" que era como quem dizia, sou forte, sou da terra da Catarina.
Mas como a minha história sobre as memórias pessoais de Catarina Eufémia não acabam aqui, tinha uns 16 anos provavelmente, quando eu e uns colegas da escola decidimos ir passar umas férias a uma pousada de juventude. Isto no Inverno. E escolhemos a pousada com os preços mais baratos de todos, a pousada de juventude de Beja. Entretanto descobrimos depois de lá estarmos que não tínhamos nada para fazer. Mas foi divertido na mesma. Um dia decidimos apanhar o autocarro e ir até Serpa passear. E onde parou o autocarro? Em Baleizão, mesmo, mesmo em frente da estátua de Catarina. E lembro perfeitamente de pensar "Já vim a Baleizão".
E porquê toda esta história?
Porque conheci uma pessoa com o apelido Baleizão e sempre que a vejo todas estas memórias me vêm à cabeça. E na minha cabeça ecoa "Ó Baleizão, Baleizão"
E esta é a história de quem?
De Catarina Eufémia?
Da minha amiga e da sua morada?
Dos alentejanos que cantavam no café?
Do que dizia "sou de Baleizão"?
Dos colegas com quem fui a Baleizão?
É de todos, é minha... São as memórias entrelaças em pessoas diversas. As pessoas são para nós as memórias que temos delas. E estas estarão sempre ligadas a alguém que viveu muito antes de mim.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
De Catarina, o cante, as ruas e Baleizão
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